Isabel Allende mergulha no mundo cão em seu novo livro
RIO – Por mais de duas décadas, a escritora chilena naturalizada americana Isabel Allende assistiu, dentro de casa, à devastação provocada pelas drogas. Anotou num caderninho pensamentos sobre o sofrimento dos três filhos de seu marido, o promotor William Gordon. Registrou fatos como a prisão do mais velho, por porte de drogas, a peregrinação do mais novo por clínicas de reabilitação e a morte da do meio, aos 28 anos de idade, depois “de ter usado tudo o que existia”.

Em 8 de janeiro de 2010, obedecendo à tradição de começar um livro sempre no mesmo dia em que digitou as primeiras palavras de “A casa dos espíritos”, seu maior sucesso, Isabel sentou-se diante de seu computador, na Califórnia, e decidiu que era hora de expurgar a dor enrustida. Assim nasceu “O caderno de Maya”, que a editora Bertrand Brasil lança neste sábado no país e que marca uma reviravolta na produção literária de Isabel. Conhecida por seus romances históricos e de época, a autora mergulha agora na contemporaneidade e deixa entrever as angústias desse mundo cão.
Em entrevista ao GLOBO por telefone, a autora, que faz 70 anos em 2012, conta como encarnou a adolescente que escreve em primeira pessoa e vive entre a anorexia, a violência, o tráfico de drogas e o abuso sexual e defende com ênfase a descriminalização das drogas: “O sistema atual está falido. É uma questão de educação e saúde”.
O GLOBO: Por que, depois de quase 20 livros históricos ou de época, escrever uma obra que mergulha no mundo cão contemporâneo?
ISABEL ALLENDE: Porque estou rodeada de adolescentes — tenho seis netos —, e eles estão expostos a desgraças que antes não existiam ou eram de difícil acesso. Há criminalidade nas ruas, drogas e álcool em qualquer lugar… Pela internet, qualquer pervertido pode falar com um jovem. É difícil crescer num meio assim. E, além disso, desde que me casei com Willie (o promotor William Gordon), há 25 anos, me interesso pelo assunto drogas. Os três filhos dele foram viciados. Nossa família viveu essa tragédia muito de perto.
Viciados em quê?
Em todos os tipos de droga. O mais velho foi preso, passou por clínicas de reabilitação e, só agora, aos 47 anos de idade, encontrou uma companheira e está bem. O mais novo, que hoje tem 25, usou heroína por dez anos seguidos e só agora conseguiu se livrar dela. Jennifer, a filha do meio, não teve a mesma sorte. Morreu aos 28 anos, depois de ter consumido tudo o que existia.
Maya, a jovem de 19 anos que protagoniza seu novo livro, é Jennifer?
Não. Jennifer sofreu a vida toda com as drogas. Maya, no início, é uma jovem saudável, inteligente, atleta, que tem o azar de estar numa idade difícil quando sua família se desintegra. Ela é, na verdade, a mistura de duas de minhas netas: uma que é intelectual, gosta de ler e escrever, e outra que é uma rebelde aventureira, que mantém a família ligada o tempo todo.
Uma das cenas mais fortes do livro é o estupro de Maya por um caminhoneiro…
Sem dúvida. Nunca planejo o rumo de uma história. Quando cheguei a esse ponto, pensei: “Que horror! Como vou tirar ela disso?” Foi muito sofrido. Mas não existe romance sem sofrimento, dor, tragédia. Eles são feitos essencialmente disso.
“O caderno de Maya” é um livro feito para os adolescentes?
Não. É um livro para adultos. Para eles saberem o que acontece com os adolescentes. Mas, mesmo assim, evito ir aos detalhes escabrosos. No estupro de Maya, ela está inconsciente, não se lembra de quase nada do que aconteceu. O relato não fica sombrio.
Mas há uma lição no livro, não?
Não tenho intenção alguma de passar uma mensagem. Não sou pedagoga, conselheira. Nada disso. Sei apenas que, segundo estudos, o lóbulo frontal, o da razão, é o último a se desenvolver no corpo humano. Então tem um momento na vida dos jovens em que eles têm corpos de adultos, são alvo de tentações de adultos, mas não sabem raciocinar com plenitude. Recebem todos os estímulos possíveis e não são capazes de medir as consequências de seus atos. Isso me interessava.
Aos 69 anos, como conseguiu escrever o diário de uma adolescente de 19?
Ouvindo os netos, mas foi muito complicado. Eles falam inglês. Eu escrevo em espanhol. Me esforcei para criar uma jovem genérica, sem um linguajar coloquial e sem referências culturais que caducam com o tempo. Escapei, por exemplo, de citar gostos musicais da protagonista.
O grupinho de Maya, “as vampiras”, é composto por jovens anoréxicas, assediadas sexualmente tanto em casa quanto na rua, que traficam drogas à vontade. Há solução para esse quadro?
Educação e saúde. Públicas.
Então a senhora é a favor da descriminalização das drogas?
Totalmente a favor! Vi o drama provocado por elas muito de perto e sei que ele não vai se resolver a bala nunca. Não é uma questão militar, policial. É uma questão de educação e saúde públicas. Os bilhões de dólares que os governos atuais gastam para penalizar o uso da droga deveriam dar aos jovens esporte, arte, educação e, quando necessário, reabilitação. O sistema atual está falido. Isso já está mais do que comprovado.
Essa é exatamente a bandeira que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso levanta hoje em dia. Já leu sobre isso?
Não, mas seria fantástico que o Brasil iniciasse esse movimento. É um país grande, forte. Tem potencial para fazer o mundo repensar o assunto das drogas.
Uma pessoa que viveu tão de perto o sofrimento gerado por elas não deveria querer vê-las bem longe? Inacessíveis?
Com exceção de heroína, eu provei todas as drogas e não sou viciada. De novo: é uma questão de educação e saúde públicas. É importante legalizar pelo simples fato de que isso é exatamente a última coisa que o traficante quer na vida. Acabam as máfias, a corrupção.
Quando escreveu “O caderno de Maya”, pensou que responderia a esse tipo de pergunta?
Não (risos). Geralmente só me dou conta do efeito daquilo que escrevo bem mais tarde, quando o livro já está publicado. Aí vem minha mãe e diz: “Olha aí você se metendo em outra confusão de novo!” E eu respondo: “Mãe, o que não vou fazer é uma autocensura.”
Fonte: O Globo
(http://oglobo.globo.com/cultura/isabel-allende-mergulha-no-mundo-cao-em-seu-novo-livro-3411797)

